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10/10/2017 - Casados, pais e avôs fazem 'cursinho' após abuso sexual em ônibus e metrô


 "Vi a menina na estação do metrô e achei bonita. Caminhei até ela, esbarrei e passei a mão." Assim Joaquim, 24, descreveu o ato que o levou à delegacia denunciado por abuso sexual neste ano.

"Sei que errei e me arrependo, mas não sou como esses caras que se aproveitam de mulher dentro do ônibus", disse, ao relembrar o caso de um homem que foi preso no mês passado depois de ejacular em uma jovem dentro de um coletivo na avenida Paulista –ele já havia feito outras 17 vítimas antes disso.

 O relato de Joaquim à reportagem aparece em meio às poucas confissões que surgiram em um encontro, no último domingo (8), que colocou numa mesma sala do Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, 16 homens acusados de cometerem abuso sexual em veículos de transporte público.

No mesmo espaço, um sociólogo e um terapeuta tentavam explicar a eles um pouco sobre as raízes de uma sociedade machista –com homens que acham que "uma encoxada" ou "passada de mão" não é nada grave.

Atentas às discussões, duas estudantes de psicologia eram parte da minoria feminina no local.

Os acusados compareceram ali como forma de escapar de um processo na Justiça que resultaria em pena de prestação de 28 horas de serviços à comunidade ou pagamento de multa de um salário mínimo (R$ 937).

Um curso com duração de oito horas foi a "pena" aplicada aos acusados. Ele faz parte do programa Todos Juntos Contra o Abuso Sexual, que começou em janeiro e envolve, além do Tribunal de Justiça, empresas públicas e particulares de transporte e outras entidades.

Por serem acusados dos chamados crimes de menor potencial ofensivo, eles ganharam o direito de extinção do processo judicial desde que participem desse trabalho de conscientização.

A campanha teve início em meio ao crescimento das denúncias de abuso sexual nos transportes, amplificadas por relatos nas redes sociais.

PERSONALIDADE

A Folha acompanhou a primeira etapa do curso sob a condição de que os envolvidos não fossem identificados. Por isso, a reportagem usa nomes fictícios para eles.

Solteiros, separados, casados, pais ou avôs compunham o variado perfil de acusados. Diante deles, o filósofo e sociólogo Sérgio Flávio Barbosa deu início à palestra com uma missão: fazê-los, logo de cara, entender que cometeram um crime, mas que é possível pagar por isso por meio de aprendizado.

Para isso, tenta convencê-los de que o machismo faz parte da personalidade. "Eles precisam ter consciência do que estão fazendo dentro de um ônibus e parar de repetir padrões, quebrar com esse naturalismo de que homem segue seu instinto de caçador e que a mulher é a presa", diz Barbosa, que faz um trabalho voluntário.

 NÃO FIZ NADA

A maioria dos participantes chegou só –apenas um deles foi acompanhado do pai. Cada um se apresentou e, depois, todos se levantaram para uma atividade corporal, espécie de relaxamento e reflexão com exercícios de respiração e equilíbrio.

Em seguida, assistiram a um filme de animação sobre o qual tiveram que discutir em grupos. No momento em que a palavra é dada aos acusados é possível identificar que muitos negam os delitos.

"Eu estava dentro de um ônibus superlotado. Tenho uma deficiência e dificuldades para andar. Esbarrei na mulher e ela disse que eu passei a mão. Nunca fiz isso", afirmou um homem.

O terapeuta Francisco Gomes, que também atua no curso, simulou uma situação junto com Barbosa em que se aproximou do colega sentado, como se fosse um passageiro de pé num coletivo prestes a se esfregar em alguém. "O simples encostar é uma coisa perversa. Dá um passo para trás", disse aos acusados.

Para ele, o curso deve mostrar no futuro que criminalizar não é o caminho. "É possível resgatar", disse.

Em meio à tentativa do curso de romper com visões machistas, alguns participantes questionaram o que chamam de "excesso de poder" das mulheres para um boom de denúncias. "A mulher descobriu que tem força e pode dizer 'ele me tocou' mesmo se não tiver tocado", disse um acusado.

Coordenadora do programa, a juíza Tatiane Moreira Lima afirmou que esse processo de negação é frequente. "Eles não conseguem nem sequer perceber isso. É mais do que negar, simplesmente não processam que isso é algo reprovável. Eles não se veem como abusadores ou agressores, tentam achar desculpas", disse a magistrada.

Ela já implementou o programa de palestras a acusados de violência doméstica. Segundo ela, estudos mostram que a reincidência nesse caso caiu de 77% para 6%.

A ideia é repetir a estatística nos crimes sexuais. A juíza já sentiu na pele a violência dentro de seu local de trabalho. Em 2015, um homem que respondia a processo por agredir a ex-mulher manteve a juíza refém em sua sala, onde ameaçou atear fogo nela.

Para Tatiane, a aplicação do curso como forma de extinção do processo não pode ser vista como impunidade. "O sistema penal não é suficiente para dar a resposta adequada nesses casos. São necessárias outras ferramentas, como essa."

FOTO ÍNTIMA

O vendedor Augusto, 38, deixou o fórum no domingo com o compromisso de voltar no mês que vem. No início do ano, após ver uma mulher de saia na escada rolante do metrô, sacou seu celular e fotografou suas partes íntimas.

"Vi uma facilidade e fiz a foto. Ela percebeu, acionou o segurança e deu no que deu. Aprendi que não se pode tratar a mulher como objeto. Foi um ato impensado e de egoísmo", afirmou.

Fonte: Folha de S. Paulo.

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